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Vizinha lemba
Guida Cortez
Vizinha Lemba estava furiosa e não se cansava de muxoxar!
- É incrível como as pessoas podem ser tão caras-de-pau. Aproveitam-se da desgraça dos outros. Tudo serve para lucrar, tudo.
O marido da Lemba já não respondia, nem via como acalmar a esposa.
Depois da subida dos preços dos combustíveis, o bairro estava às avessas: a Comissão de Gestão tinha mandado retirar todos os mercados dos arredores, com a fiscalização de olho vivo, ninguém vendia na rua, à excepção das crianças dos rebuçados e sambapitos. Os cantineiros são careiros e nem sempre têm tudo.
Apanhar o candongueiro até ao Roque ou Congoleses (ou congolenses?) era um arrombo. As crianças já tinham matabichado farinha musseque com chá, porque as padarias do bairro deixaram de funcionar.
O motivo da raiva da vizinha Lemba era a sâ Pancha, oportunista, que estava a vender fuba aos olhos da cara. Como toda a gente do bairro malanginho é grande consumidora de funji, decidiu aproveitar-se da situação.
- Nem parece ser mais velha – comentava-se.
- Quem quiser comprar a fuba pode vir à vontade. Tentei vendê-la na pracinha antes da corrida, mas como era muito escura não compraram. Agora, quem quiser comprar também um gatinho.
- Mas não preciso de gato, os meus filhos são alérgicos – reclamou uma vizinha.
- Mana, você tem ratos em casa e estou a fazer descontos nos gatos. Quer fuba, leva também um gatinho - sâ Pancha estava irredutível.
As pessoas começaram a questionar-se: não seria ela uma feiticeira? Obrigar os outros a comprar gatos com fuba? Ela deve ter alguma coisa a ver com o encerramento das moagens..
- Quem quer comer funji tem de levar um gato. E estão baratinhos – dizia no gozo.
De repente, sâ Pancha viu-se no ar e afastada a banheira. D. Meli, uma catete sem meias medidas, decidiu vender a fuba para as outras. Sâ Pancha nem conseguia mover-se, tal era o espanto. Depois de todos comprarem a fuba, D. Meli entregou-lhe o dinheiro - por isso é que guardavas os gatos? Mesmo Deus não gosta disso. Os gatos são animais de Deus. Quem quer, tudo bem. Quem não quer, fica assim. Agora nos empurrar os gatos tipo comida, nunca vi!
Bons aldrabões
Isaquiel Cori
Os bons aldrabões, isto é, os aldrabões assumidos, confirmados e reconfirmados nos seus atributos, são figuras muito nossas conhecidas. Estão em nossa casa, no serviço, na escola, no táxi, nas praças, nas festas, nas praias, nas igrejas, na media... Enfim, pululam em nosso redor.
Há os que se apresentam puros, inconfundíveis, até mesmo perfeccionistas: insuperáveis, levam tão a sério o afã de aldrabar o próximo (entenda-se, o cidadão que está perto deles) que neles o aldrabar já é um modo de vida. São, digamos assim, os artistas da aldrabice.
Mas entendamos-nos: aqui estamos a falar dos bons aldrabões, dos indivíduos em todo o caso honestos na sua desonestidade e coerentes porque sistemática e repetidamente incoerentes. É fácil identificá-los nas suas falas versáteis e fluentes e nos gestos largos e lentos com que dão mais força às suas estórias engenhosas.
Aldrabam porque são aldrabões e é assim que vivem e alimentam o seu ego. Porque já sobejamente conhecidos raramente provocam danos. Suscitam e convocam o riso, tiram-nos do sério e contribuem imensamente para o nosso bem estar.
Alguns foram tão marcantes na nossa infância que as suas estórias continuam a povoar-nos o imaginário e eles próprios a habitar a nossa memória.
Há uma geração de crianças do Kassequel do Buraco e do Lourenço, bem como da Calemba, do tempo em que os bairros mais do que um conjunto de casas eram um sentimento incrustado no coração das pessoas, geração hoje espalhada e diluída na luta pela vida, que conheceu muito bem o Mano Azevedo. Vinte e tal anos depois essa figura ergue-se na lembrança dos hoje adultos como a consumação da aldrabice e da mentira. Mas vinte e tal anos atrás ele era o portador do fantástico e do inverosímil para um pelotão de crianças ávidas do maravilhoso. As suas estórias convocavam e apelavam ao sonho, dinamitavam as frágeis, falsas e arbitrárias fronteiras da realidade. Até hoje ele é o meu “bom aldrabão” favorito.
Fátima
Manuel Muanza
Chega uma leva de peregrinos.
Há mais gente a caminhar, de joelhos, em direcção à Capelinha das Aparições. O Jônata, mochila às costas como quem carrega uma data de pecados, vem agradecer à Nossa Senhora pela cura do irmão.
No lava-pés, um sexagénário recompõe-se nas mãos dos auxiliares de saúde; acaba de vencer, também de joelhos, o percurso até à Capelinha. Sem largar o terço, diz algumas preces em voz baixa. A seu lado, um ancião estende as palmas das mãos em forma de leque. E, de olhos fixos no céu, agradece a Deus, talvez pela longevidade concedida.
Mais uma leva de peregrinos.
Entre os fiéis, um casal. Olham um para o outro, sorriem. É a terceira vez a optarem pela caminhada, gesto de recompensa à Divindade pela reunião do casal, outrora desavindo, agora em perfeita harmonia. “Dou graças a Deus”, afirma o homem, abraçando a esposa, cuja compleição bem se mostra ter sido bem talhada à nascença.
Outra leva de peregrinos está a entupir a passadeira. Imitámo-los, pomo-nos também de joelhos. Mais por vergonha de sermos os únicos a ignorar o ritual.
Na verdade, entre nós ninguém conhece o significado daquele sacrifício. Nem o Adebayó nem o Faní nem mesmo o Germano, originário duma terra de tradição católica, nem mesmo eu. Ninguém.
O Germano veste uma camisola de cor preta. Como te atreves, ó Germano, vindo ao santuário das luzes, a vestir uma cor associada às trevas!
- Bons dias, amigos, interrompe-nos um padre diocesano. Esteve a ouvir a nossa discussão sobre a camisola. Não faz mal, o preto pode ser interpretado também como renúncia à vaidade mundana. As capas negras simbolizam a proclamação da fé. Afinal? – Admira-se o Adebayó.
Voltámos ao Porto. E feridas a derreter-nos os joelhos. Caminhámos porque, ao carregar o corpo de dor, libertámos a alma do peso da vaidade dos homens.
O passageiro clínico
Pereira Dinis
O homem, vestido a rigor e a cheirar a bom perfume, apanhou o táxi no S. Paulo. O seu destino era a Mutamba.
Como o homem estava tão apressado, subiu ao táxi e começou por pedir ao taxista para baixar o volume do rádio, porque estava a incorrer num crime de poluição sonora. E como vai pagar o serviço que lhe está a ser prestado, logo o mesmo deve ser atendido condignamente.
O taxista, que sabe bem qual é o direito do cliente, diminuiu o volume e pediu desculpas ao digno passageiro. Não satisfeito, o cínico passageiro chamou a atenção ao cobrador para que na próxima não levasse mulheres zungueiras, porque cheiram calor.
O cobrador não respondeu, mas as zungueiras, num número de três, responderam: “Não é nossa vontade ser zungueira. Somos zungueiras porque estamos a ajudar os nossos maridos, que estão desempregados, depois de cumprirem o serviço militar obrigatório”.
O cínico passageiro não respondeu. Junto ao Museu da História Natural, o cobrador começou a cobrar. Todos pagaram, menos o tal cínico que apalpava, apalpava e apalpava mais os bolsos. Depois de se aperceber que nos bolsos não havia nada, entrou em pânico, começou a transpirar e exclamou numa voz seca: “Esqueci o dinheiro!”.
O taxista disse: “Meu amigo não há problemas. O senhor exigiu um trabalho condigno e fizemos a sua vontade. Como se não bastasse, ofendeu estas humildes mulheres que lutam diariamente pela vida. Não lhe vou perdoar. Depois de deixar o pessoal na Mutamba, vou fazer 1º de Maio, depois vou fazer Estalagem, depois vou fazer Dondo, só depois é que lhe vou deixar no S.Paulo”.
Ele não sabia como pedir perdão. As mulheres, ao verem o estado do cínico passageiro, cada tirou 10 kwanzas e pagaram-lhe a corrida. Cara de pau como é, não negou, nem sequer agradeceu, de vergonha. “Pai chega bem, não se esquece que são as zungueiras, estas que estão a cheirar mal, que te ajudaram, mas sem ressentimento”, disseram.
O visto
Júlia Talaia
"Angolano inventa..., é a fome!"
Dog Murras tem razão. Muitos devem ser os motivos que o levaram a expor numa das suas músicas a frase acima referida. Não sei se apenas a fome incita os angolanos a invenções ou se realmente existe uma forte capacidade criativa. Talvez a fome esteja mesmo na origem das ondas de invenções dos angolanos, visto que toda causa produz um efeito.
Contudo, não nos esqueçamos de que não há regra sem excepção; quero com isto dizer que numa escala de 0 a 10, 2 porcento das invenções pode não advir da fome.
Pelas ruas da nossa cidade e noutros meios restritos, ouvem-se palavras que, de um modo ou de outro, para quem não estiver atento às circunstâncias em que ocorre o processo de comunicação, dificultam a descodificação da mensagem.
"Passem o visto!" Foi em tom alto que ele se dirigiu a nós. Ninguém se moveu para passar o "visto". Entreolhámo-nos e cada um via a expressão de espanto estampada no rosto dos que se encontravam ao seu lado.
O que seria "visto"?
Normalmente, quando se ouve falar em visto, a primeira ideia que nos vem à cabeça é um passaporte.
No entanto, para o contexto em que nos encontrávamos, o seu significado nada tinha a ver com passaporte e muito menos com a visão.
Num ápice, como se nos tivéssemos comunicado por telepatia, todos percebemos o novo significado de "vistos": mutala, larjan, money, ou seja, dinheiro! Evidentemente, só poderia ser dinheiro, uma vez que nos aproximávamos do local de paragem dos táxis.
Sinónimo adequado, pois o dinheiro é deveras o visto para muitos problemas.
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