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“Já não se justifica o conflito no Sahara Ocidental”
A ministra saharaui da Cultura e dos Desportos, Mariem Hmada, esteve recentemente em Luanda, a convite da Organização Pan-Africana das Mulheres (OPM), no âmbito da conferência sobre a feminização da pobreza e conflitos armados em África. De 38 anos de idade, natural de Smara, no Sahara Ocidental, é licenciada em literatura árabe pela Universidade de Argel. Em entrevista exclusiva ao “JA”, aquela governante falou ao mesmo tempo na qualidade de membro do executivo da RASD e de mãe corajosa (é casada e tem dois filhos e uma filha). Na ocasião, fez uma ampla abordagem dos temas constantes no “menu”.
Henrique Matos
JA – Acha que o povo saharaui poderá seguir o exemplo dos timorenses num futuro próximo?
MH – Nós aguardamos que isso aconteça o mais breve possível porque as causas saharaui e timorense são iguais. Depois da saída de Portugal, o pequeno território de Timor-Leste foi invadido por um país grande e fortemente armado, contra todos os princípios das Nações Unidas sobre os direitos dos povos à auto-determinação.
Contudo, durante todos esse período, Portugal desempenhou um papel activo para a auto-determinação do povo timorense. A Auatrália, como um grande país, desempenhou igualmente um papel decisivo para a independência de timor-Leste, sobretudo no apoio às Nações Unidas para realizar com êxito as suas tarefas. Esse sucesso da ONU acalenta esperanças para o povo saharaui porque, como sabe, a história das Nações Unidas está cheia de fracassos. Mas o sucesso da ONU foi graças à vontade do povo timorense no prosseguimento da sua luta atè à libertação total, ou seja, a independência.
No nosso caso concreto, o governo espanhol não teve o mesmo procedimento que Portugal em Timor-Leste. Sabe-se que a Espanha atravessou momentos de turbulência depois da morte do general Franco e foi alvo de pressões externas do Ocidente. Nós compreendemos a situação dos espsnhóis, mas não quero desculpar o governo espanhol porque a Espanha é a principal responsável por tudo aquilo que aconteceu no Sahara Ocidental desde 1975 até aos nossos dias, tais como massacres, pilhagens sistemáticas das riquezas naturais, torturas, encarceramentos.
Mesmo o referendo sob a responsabilidade da ONU, era uma tarefa da Espanha desde 1974. Ultimamente, a posição espanhola mudou de forma positiva. Essa mudança é uma evolução da posição da Espanha. O primeiro aspecto é o discurso do Rei da Espanha durante a visita do Rei do Marrocos à Espanha.
O segundo aspecto é a posição do chefe do governo espanhol antes e depois da sua vitida aos Estados Unidos da América. Isso fez com que fracassasse o plano Baker a nível das Nações Unidas. Agora, a posição oficial do governo espanhol é de apoio total ao plano de auto-determinaçãodo povo saharaui através de um referendo justo, livre e imparcial, bem como a resolução do conflito com o consenso de ambas as partes, ou sejam, a Frente Polisario e Marrocos. Para nós, isso quer dizer a independência.
Em contrapartida, a posição do povo espanhol não é a mesma do governo. O povo espanhol apoia a causa saharaui de forma incondicional e é a favor da independência dos saharauis. Desde o início, tem prestado um apoio concreto. Este ano, mais de novecentos alunos saharauis vão passar as férias de verão em várias províncias de Espanha.
Acho que chegou a hora para que o problema do Sahara Ocidental seja resolvido, visto que é um conflito já ultrapasado. Não é aconselhável para Marrocos prosseguir essa luta imposta do exterior pelos franceses. Quero igualmente apelar a França para que cesse de apoiar essa guerraporque não tem interesses para ela nem para Marrocos. Actuelmente, Marrocos atravessa uma grave crise sócio-económica. Ademais, Marrocos é um país que tem problemas com todos os seus vizinhos.
No Norte, tem a questão da invasão de Ceuta e Melila pela espanha. No Leste, tem problemas fronteiriços com a Argélia, visto que reivindica a soberania sobre o território argelino de Bachar. No Sul e Sudeste, tem problemas com a Frente Polisario, que luta pela independência do Sahara Ocidental. E no céu também tem problemas com o Deus porque os islamistas são activosno Marrocos. O Rei, que se diz comendador dos crentes, chega a gastar numa noite de hospedagem num hotel de luxo o equivalente a um orçamento para dez mil pessoas durante um ano. Quer dizer que o bom Deus não gosta disso, claro.
No Marrocos, há uma pobreza acentuada, o desemprego, o tráfico de drogas, a emigração clandestina para a Espanha, em particular e para a Euroipa, em geral. Isso leva a juventude marroquina ao desespero e ao suicídio. A guerra no Sahara Ocidental acentuou o descontentamento no seio da camada juvenil e, sobretudo, no seio dos militares. Aliás, esses últimos tentaram dois golpes de estado em 1971 e 1972.
É o povo marroquino que mais sofre com essa situação toda, não obstante o apoio da França, para além do avultado apoio financeiro da Arébia Saudita, com milhões de dólares, e do apoio técnico-material de Israel, cujos conselheiros planificarm o famigerado “muro de segurança”, para eles, mas que não passa de um muro de vergonha, para nós.
O certo é que Marrocos não tem mais capacidade nem motivação de retornar à guerra. O regime marroquino tem medo de voltar à guerra porque sabe que a maioria dos militares marroquinos não auer mais nada com essa aventura. A título de exemplo, o governo marroquino gasta diariamente cerca de um milhão de dólares para sustentar o seu exército no Sahara ocidental.
JA – Como avalia a cooperação entre a RASD e os restantes países africanos nos domínios da cultura e dos desportos?
MH – Nós temos uma grande cooperação com os países africanos a nível cultural e desportivo. Já tivemos uma grande experiência que teve êxito e foi consubstanciada pelo envio de uma caravana cultural a vários países africanos, visto que até ao momento só enviávamos caravanas culturais para a Argélia por ser um país irmão.
Anulamente, organizamos um festival de música africana com a colaboração de uma empresa espanhola chamada Nova Negra.
Entretanto, esperamos que a nossa cooperação com Angola prossiga para muito mais tempo porque Angola representa muita coisa para nós. Acho que num futuro próximo, poderemos fazer o intercâmbio de delegações artísticas.
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A mulher saharaui é dinâmica e emancipada |
JA – Como é que se caracteriza a cultura de um país em luta?
MH – Num país onde se regista uma luta pela libertação de um povo, a cultura deve estar igualmente inserida na linha da frente. A nossa luta e o nosso combate servem para impôr a nossa nacionalidade. Antes de 1975, a Espanha dizia que nós eramos espanhóis e, depois de 1975, na sequência da assinatura do acordo tripartido entre Marrocos, Espanha e Mauritânia, passaram a dizer que os habitantes do Norte do Sahara Ocidental eram marroquinos e os do Sul eram mauritanianos.
Agora, os marroquinos dizem que todos os saharauis são marroquinos. Quer dizer que a nossa luta é para impôr a nossa nacionalidade e comprovar a diferença entre nós e os outros países fronteirços. É por isso que estamos a desenvolver muitos esforços para dar a conhecer a nossa cultura a nível internacional. Estamos orgulhosos de sermos saharauis.
Nós queremos valorizar a nossa cultura, sobretudo junto da nova geração para que não seja desviada pelas influências negativas provenientes de outros países.
JA – Por norma, a prática dos desportos implica necessariamente a existência de uma juventude dinâmica. Tendo em conta a situação específica do povo saharaui, gostaria que abordasse esse assunto com mais pormenores.
MH – A prática dos desportos não é exclusiva à uma juventude dinâmica. Em primeiro lugar, a prática dos desportos é um direito de toda a sociedade e não apenas de uma juventude saudável. No que concerne à juventude, é uma forma de se expandir na sociedade.
Por seu turno, a mulher saharaui pratica muito as actividades desportivas. Em cada área administrativa, existem muitas praticantes, sobretudo nas modalidades de voleibol e de atletismo. Com isso, queremos demonstrar que não há diferença entre os homens e as mulheres no domínio desportivo. A prática desportiva é para tornar o corpo saudável, bem como preparar a juventude para a luta, quer seja armada ou de reconstrução do nosso país.
JA – Qual é o papel da mulher na sociedade saharaui?
MH – Gostaria de esclarecer que a minha resposta não de destina a fazer propaganda pelo facto de eu ser mulher. Durante a sua estadia nos acampamentos de refugiados, teve a oportunidade de constatar o dinamismo e a coragem da mulher saharaui.
A mulher está presente em todos os domínios da sociedade saharaui. Ela é professora, médica, enfermeira, entre outras profissões, e participa activamente na vida social. A nível político, ela é deputada, dirigente, responsável e tem o direito de votar e ser eleita. No âmbito económico, ela está presente na produção agrícola. O seu lugar privilegiado na sociedade saharaui foi conquistado por mérito próprio.
Tal conquista tornou-se possível graças à natureza da sociedade saharaui, uma sociedade aberta que não faz a diferença entre os homens e as mulheres. Os ideiais da Revolução de 20 de Maio concedem amplos direitos à mulher saharaui, em particular a chefia e a gestão familiar na ausência dos homens. Daí que se nota a diferença entre a mulher saharaui e as outras mulheres árabes. Talvez devido à longa presença espanhola, a sociedade saharaui tem mais semelhança com a Espanha, a América Latina e África, do que com o mundo árabe.
Entretanto, deve acrescentar que a Organização de Unidade Africana (OUA) prestou-nos um apoio digno de realce. O povo espanhol ajudou-nos de forma humanitária e material. Fomos igualmente ajudados pelos países da América Latina. É por isso que nós somos mais ligados aoa povos espanhol, africano e latino-americano e não ao mundo árabe e muçulmano. Para os jovens saharauis, ao contrário dos jovens muçulmanos, a Meca é Argel, Luanda ou América Latina.
JA – Como tem sido a participação da mulher saharaui no amplo processo de resistência armada?
MH – Nós ficamos bastante orgulhosos quando alguém que pretende falar sobre a luta do povo saharaui, destaca sobretudo o papel da mulher. Não se pode esquecer a participação activa da mulher na resistência contra a colonização espanhola.
As mulheres estiveram envolvidos em todas as actividades levadas a cabo pelo movimento de resistência e no âmbito da luta armada. No início da invasão pelo Norte e pelo Sul, os saharauis não tinham outra alternativa senão refugiar-se para a Argélia, cujas autoridades receberam-nos de braços abertos. Foram momentos difíceis e a Frente polisario soube adaptar-se a essas adversidades e manteve a liderança da luta armada e, ao mesmo tempo, a protecção dos refugiados, bem como o apoio logístico e alimentar.
Em face do genocídio levado a cabo pelos marroquinos contra os saharauis, chegou-se à conclusão de que os homens aptos deveriam ir para a frente de combate e as mulheres ficariam para administrar os acampamentos de refugiados, bem como fazer a preparação combativa e o manejo de todos os tipos de armas para quaisquer eventualidades.
Muitas mulheres participaram directamente na luta armada desde 1975. Temos o exemplo de uma destacada combatente chamada Sidamui, que acompanhou a luta armada desde 1975 até ao cessar-fogo, em 1991. Todos os seus companheiros destacam as suas qualidades, os seus feitos heróicos e a sua bravura.
Posso mesmo afirmar, sem margem para dúvidas, que a causa saharaui atingiu o seu actual nível, graças ao empenho da mulher. Quando as mulheres regressam as frentes de combate e constatam o excelente trabalho das mulheres, faz com que eles fiquem mais incentivados e motivados para o prosseguimento das suas actividades Militares.
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O povo saharaui quer apenas a sua independência |
JA – Qual é a situação actual no Sahara Ocidental?
MH – Como sabe, estamos a aguardar a próxima discussão no seio do Conselho de Segurança da ONU para a escolha de uma das quatro opções. A primeira é o referendo para a auto-determinação do povo saharaui, a segunda é a autonomia do território, a terceira é a divisão do território e a quarta é a retirada das Nações Unidas.
O povo saharaui vai aceitar a solução que melhor lhe convier e essa solução é a sua auto-determinação. Nós somos um Estado e exercemos a nossa soberania nos territórios libertados e somos reconhecidos pela Organização de Unidade Africana (OUA) e, apesar disso, aceitamos a realização de um referendo de auto-determinação a fim de respeitar a legalidade internacional.
Se o povo saharaui quisesse aceitar o plano de autonomia sob a soberania marroquina, já o teria feito no mandato do Rei Hassan II, aquando do encontro com uma delegação da Frente Polisario no Marrocos, com a condição de que a política externa, a moeda nacional e a bandeira fossem da responsabilidade de Marrocos. Claro que nós não aceitamos. Se nós quisessemos aceitar isso, seria com uma pessoa que, de facto, tem poderes, e não uma marionete.
Quanto à divisão do Sahara ocidental, devo dizer que o território saharaui não é um bolo que se pode repartir para várias pessoas. Nós não podemos aceitar a divisão do nossos território em várias partes e isso é totalmente inaceitável. Não posso aceitar que a minha prima que vive em El Ayun seja maroquina e a outra que está em Dahlan seja saharaui.
JA –Qual é a sua mensagem para o povo angolano?
MH – É uma boa ocasião para mim de agradecer as minhas queridas irmãs angolanas pelo convite e, através ela, a Organização Pan-Africana das Mulheres.
Esta oportunidade serve igualmente para felicitar o povo angolano pelo grande feito histórico da paz. Acho que é uma grande exemplo que o povo angolano está a dar, ou seja, a capacidade de resolver os seus assuntos sem a interferência de outros povos e sem a mediação estrangeira.
Devo salientar que esta conquista não é apenas do povo angolano. É igualmente uma conquista do povo saharaui e dos africanos em geral. Quero endereçar uma mensagem de felicitações do governo e das mulheres saharauis para com o governo e as mulheres de Angola.
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